A voz e as meias

por caixaaltablog

– Você nunca perde essa maldita mania de deixar as meias espalhadas pela casa!
O grito ecoou pelas paredes úmidas do banheiro e encheu o coração de Marcelo de medo. Aquela voz que conhecia tão bem e já não ouvia a mais de vinte anos fez com que suasse frio. Fechou os olhos com força e começou a enxaguar os rasos cabelos negros com força como que tentando apagar da memória esse pequeno devaneio assustador. Não era possível, depois de todos esses anos aquela voz voltar para assombra-lo.
Quando finalmente conseguiu respirar fundo e se acalmar um pouco desligou o chuveiro e começou a se secar. O corpo já não era mais o mesmo da época em que aquela voz se fazia muito presente em sua vida e neste momento fatídico notou que existiam uns três fios de cabelos brancos em seu peito, o que era muito curioso porque a cabeleira apesar de rasa continuava negra, tinha herdado a calvície de seu pai, aquela voz que o atormentara minutos antes fazia questão de sempre o lembrar disso. Depois de vestir as cuecas as batidas na porta retomaram a sensação de medo, e como que automático ele gritou:
– JÁ TERMINEI!
Vestiu-se rapidamente e seu corpo teimava em manter arrepiado. Não era nada, não podia ser nada.
Quando saiu do banheiro a voz de Roberto Carlos encheu seus ouvidos de nostalgia. Era hora do café da manha e ele sabia que era certo que ela ouviria o rei enquanto cozinhava. O cheiro da café encheu seus olhos de lagrimas, não era possível, ela não podia voltar, não agora.
A voz desafinava cantava junto com o disco “tudo vai mal… tudo, tudo, tudo” ao entrar na cozinha se deparou com a imagem daquela mulher, sentada de costas, os cabelos negros incólume como se ainda tivesse os mesmo quarenta e dois anos de quando partiu. Ou não partiu? Ela estava ali! Ele podia ver. Foi se aproximando com passos curtos. Olhou e não acredita no que via. Quando finalmente criou coragem olhou com voz baixa e disse:
-Mãe?
Os grandes olhos cor de mel por trás dos olhos se viraram curiosamente e um largo sorriso se abriu no rosto daquela mulher, era de novo o sorriso de sua mãe. Dessa vez poderia reparar o pecado que foi não se despedir de Janaina.
Esqueceu-se de tudo, esqueceu que tinha 40 anos, esqueceu que tinha que trabalhar, esqueceu das contas pra pagar e apenas se ajoelhou, beijou a mão clara de sua mãe, e aconchegou a cabeça em seu colo.
Ficaram a manha toda ali ouvindo Roberto. E quando se deu conta já era mais de uma hora. Janaina deu um beijo na testa do filho e avisou que tinha de partir. Ele relutou, chorou, se jogou no chão, não era possível, não podia ser, mais uma vez não.
Agarrou a mão da mãe com força e como se fosse magica tudo a sua volta voltou a ser como 20 anos atrás e viu naquela mesma cozinha a mãe sozinha, cantando com o mesmo Roberto e cozinhando, ouviu ao longe uma voz que não lhe era estranha:
– TO INDO MÃE!
A porta bateu antes que a mãe pudesse dizer:
– Vai com deus Marcelo…
Logo em seguida viu a mãe se dirigir ao armário e tropeçar no ar como se fosse uma boneca de pano. E com o barulho que a cabeça de Janaina fez no chão, acordou.
Já não estava mais na sua cozinha de vinte anos atrás, estava na cama, suando frio, com um grito preso e com a culpa de deixar a mãe sozinha justamente naquele dia em que ela morreu.
Olhou para o relógio e viu que já eram 12:00 horas e estava atrasado para o trabalho. Saiu correndo para o banheiro, arrancou as roupas, abriu o chuveiro, e enquanto lavava o cabelo ouviu uma voz conhecida gritar:
– Você nunca perde essa maldita mania de deixar as meias espalhadas pela casa!

 

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